O que Virgínia, ChatGPT e Bebês Reborn têm a ver com a Política Nacional do Cuidado
Prometo que essa é a primeira e última vez que vou falar de Virgínia e Bebês Reborn
Estamos famintos de cuidado. Homens, que não foram socializados para isso, não cuidam de sua saúde física ou mental, das tarefas básicas para sua sobrevivência - limpar, cozinhar, arrumar - e muito menos dos outros. Estruturas públicas são falhas e escassas. Estruturas privadas são caras e insuficientes. Essa corda estoura nas mulheres que, soterradas por jornadas infinitas de trabalho, não têm tempo de cuidar adequadamente de si e dividem migalhas de atenção entre todos ao redor.
Quando metade das pessoas está responsável por quase todas as tarefas de manutenção da vida, isso gera um desequilíbrio e fica faltando cuidado para todos.
Cozinhar a própria comida, se exercitar, descansar, estar com a família, cultivar amizades, ir ao médico: quem tem tempo e dinheiro pra isso hoje?
Uma em cada dez pessoas que usam IA no Brasil tratam os chatbots como amigos para quem pedem conselhos e fazem confidências. A OMS declarou uma epidemia global de solidão.
O acesso ao cuidado se tornou um artigo de luxo, um objeto de desejo e, por isso mesmo, um alvo de performance. Isso explica a obsessão atual com conteúdos sobre famílias “perfeitas" e crianças “bem cuidadas", que vão ao balé, à escola bilíngue, ao dentista. Quem não consegue fazer os 12 passos da rotina de skincare coreana tem pelo menos 1 minuto para assistir um vídeo sobre o tema. Passamos horas vendo vídeos de receitas que jamais teremos tempo de fazer e mais tempo consumindo conteúdo sobre exercícios do que de fato movendo nossos corpos. Também explica por que estamos há semanas falando sobre bebês reborn, obcecados pelo cuidado que mulheres supostamente estão dedicando a bonecos.

Silvia Federicci estava certa quando disse que “o que chamamos de amor é trabalho não remunerado", mas ao mesmo tempo, como esperar uma valorização financeira do trabalho do cuidado se o tempo todo o colocamos como sacrificante, desgastante e exaustivo? Ele só recebe todos esses adjetivos porque está mal distribuído.
É preciso chamar o cuidado pelo seu nome: aquilo de que é feito o tecido da vida, a própria matéria que nos mantém vivos e pela qual vale a pena viver. Cuidar é aquilo que nos torna humanos. Se isso não tem valor, eu não sei o que mais pode ter.
Precisamos de novas narrativas que valorizem o cuidado e o mostrem como ato político e social: não só como gesto individual ou familiar, mas como base de uma sociedade justa.
Compreendemos bem o termo “sustentabilidade” quando aplicado ao meio ambiente, mas a exploração dos recursos físicos e mentais das mulheres também está no limite. Nossos fenômenos climáticos extremos se expressam em índices alarmantes de ansiedade, depressão e burnout. E se “sustentabilidade” se aplicar também aos nossos corpos?
É a exaustão dos corpos e mentes femininos, explorados até o limite como se fossem recursos inesgotáveis, que vai levar a uma nova organização social do cuidado.
Uma sociedade centrada no cuidado pode parecer uma utopia, mas estamos dando passos importantes nessa direção.
Hoje foi aprovada no senado a Política Nacional de Cuidados, com o objetivo de deslocar da família para o Estado o papel de principal responsável pelas tarefas do cuidado e garantir direitos tanto para quem cuida quanto para quem é cuidado.
Também deve ser votada ainda em 2025 a ampliação da Licença Paternidade, que atualmente é de meros 5 dias corridos, para até 60 dias.
Seriam essas utopias brasileiras que veremos colocadas em prática?
Criando novas narrativas sobre o cuidado com casa, saúde, crianças, idosos e a cidade que tenham homens como protagonistas
Não reforçando os estereótipos que colocam a mulher como responsável natural pelo cuidado
Flexibilizando jornadas e mantendo o trabalho remoto, o que facilita a vida de cuidadores
Promovendo o cuidado como política interna, principalmente se adequando à NR1 e cuidando da saúde mental dos colaboradores
Participando do cuidado das crianças e idosos das famílias de seus colaboradores, oferecendo auxílio creche, licenças remuneradas para cuidadores e licença paternidade estendida
Dando dignidade às trabalhadoras e trabalhadores do cuidado dentro da sua cadeia produtiva
Atendimento respeitoso, respeito a direitos de clientes e trabalhadores, produtos e serviços que não exploram vulnerabilidades
Se responsabilizando pelo cuidado com o meio ambiente e responsabilidade social
Esse post foi inspirado pela roda de conversa que participei sábado passado na Galeria Lateral, com o tema Cuidado em Foco, uma conversa deliciosa com a artista Mari Sperandio e a galerista Camila Alcântara. Este ano a 65|10 vai promover diversos encontros para estarmos juntos presencialmente. Se inscreve na news pra ficar sabendo ;)







