#falarede Inteligência Artificial x Inteligência Ancestral
o que a nossa rede anda fazendo de interessante
Trabalhamos em rede. Espalhada por todo o Brasil, alguns países da América Latina, Europa e Estados Unidos, a nossa rede de mais 400 especialistas é plural nos talentos - de antropólogas a diretoras de arte, redatoras a recrutadoras, de fotógrafas a gerentes de projeto - e também diversa em raças, orientação sexual, idade e outras interseccionalidades. É ela que nos permite resolver problemas de ponta a ponta: da estratégia até o craft da direção de arte e redação, passando por pesquisa e criação de insights.
“Fala, rede” é nosso espaço para dividir o que essa rede tem feito de bacana e inspirador. Nessa semana, Camila Holpert e Piera Peral falam sobre seus projetos envolvendo inteligência artificial e inteligência ancestral.
Camila Holpert e os sonhos dos brasileiros.
65|10 - Como vocês utilizaram inteligência artificial para mapear os sonhos dos brasileiros?
Camila Holpert - Esse projeto nasceu da vontade de escutar o Brasil e seus sonhos — não com perguntas, mas com atenção àquilo que já tem sido dito. Com a nossa ferramenta proprietária Cosmo, baseada em IA, analisamos mais de 104 mil textos publicados entre 2022 e 2024 em redes sociais como o X (ex-Twitter), YouTube e veículos de notícias. No total, identificamos 236 mil menções a sonhos, o que soma mais de 73 milhões de caracteres – o equivalente a 20 Bíblias ou 11 vezes a coleção completa de livros do Harry Potter.
Mas o que torna esse método tão especial não é só a escala. É a profundidade. Cosmo não apenas organiza dados: ela consegue reconhecer padrões e identificar temas emergentes. Ao contrário do senso comum, a inteligência artificial não serve apenas para automatizar tarefas ou fazer previsões. Ela pode ampliar nossa capacidade de escuta, organizando o caos narrativo do mundo digital e revelando dores e desejos — tanto os já consolidados quanto aqueles ainda em estágio embrionário.
65|10 - Sonhar é uma inteligência ancestral e vocês aplicaram a IA para identificar os sonhos mais comuns, o que essa interseção de tecnologias traz de aprendizados pra vocês?
Camila Holpert - Ao aplicar esse olhar ao tema dos sonhos, encontramos, nessa edição, alguns achados que nos convidam à reflexão:
• Sonhar deixou de ser apenas projeção de futuro e passou a ser urgência do presente. Muitos brasileiros relatam não ter sequer energia emocional para imaginar o amanhã. A exaustão mental e o estresse — que fazem o Brasil liderar rankings globais — estão inibindo a capacidade de sonhar.
• "Ter saúde mental" aparece como um sonho em si. Não mais um meio para realizar algo, mas o próprio fim.
• Sonhos individuais são maioria, mas sonhos coletivos geram mais alegria. Quando as pessoas falam sobre conquistas partilhadas — como o sucesso de uma comunidade, grupo, time ou causa — a carga emocional tende a ser mais positiva.
65|10 - O que tem de sonho seu nesse projeto?
Esse projeto nasce em mim como quem realiza um sonho antigo — o sonho da minha avó, que desejava estudar, trabalhar fora de casa, expandir o próprio mundo. Ela não pode. Mas quando me vi, anos depois, dentro de uma formação em compaixão, no CCARE, da Universidade de Stanford, desenvolvendo um processo para lidar com os sentimentos deixados pelos sonhos que ficam para trás — e, ao mesmo tempo, cultivar a capacidade de continuar sonhando — eu entendi: aquele desejo dela tinha sido realizado, não por ela, mas através do legado que ela deixou.
Esse processo se tornou o Método Nonna, uma forma de escutar com profundidade os afetos que habitam os sonhos não vividos — e de transformá-los em movimento, em espaço fértil para o novo. No encontro com Jules de Faria e Nay Ruiz, essa iniciativa ganhou corpo coletivo e se transformou no Movimento Bora Sonhar.
65|10 - A IA pode nos ajudar a sonhar?
Camila Holpert - Ao aplicar a IA para analisar um volume enorme de dados, conseguimos ver algo que seria impossível a olho nu: os contornos de um imaginário coletivo. A IA nos permite identificar os sonhos mais recorrentes, sim — mas mais do que isso, ela revela que há desejos, medos e esperanças que não são apenas individuais, afinal, mesmo sem saber, estamos sonhando juntos.
E é aí que entra a inteligência ancestral: ela nos ensina a olhar não só para frente, como a tecnologia muitas vezes faz — mas também para trás, para quem veio antes de nós, e para os lados, para quem está ao nosso redor.
Para quem sonha conosco.
Para que sonhou por nós
Para os laços invisíveis que ligam nossos desejos uns aos outros.
A interseção entre IA e inteligência ancestral mostra que sonhar é memória, é futuro, mas acima de tudo é laço. E que compreender os sonhos de um país é, também, um caminho para a cuidar dele, de nós.
Piera Peral e um mergulho no Dia de Iemanjá
65|10 - Você e o Julio Pacheco estão relançando a Mergulhos, conta o que vocês fazem.
Piera Peral - A Mergulhos atua onde nada é raso. Somos uma consultoria criativa especializada em criar e gerir projetos com curadoria profunda, unindo marcas e pessoas para construir narrativas autênticas e impactantes. Com um olhar sensível para a cultura, tendências e uma abordagem estratégica, nosso objetivo é transformar ideias em experiências tangíveis, promovendo conexões significativas.
65|10 - Qual a importância do Dia de Iemanjá?
Piera Peral - O dia de Yemanjá é muito importante pra gente, é onde agradecemos e também depositamos nossos desejos para o próximo ano que se inicia.
Especialmente para Salvador, o 2 de fevereiro é o local da oferenda da fé, alegria, festa. É uma oferenda coletiva. Uma cidade inteira mobilizada para um só rito ancestral.
Quando recebemos o convite para entrar nessa festa, com as pessoas que fazem ela há mais de 20 anos, foi um chamado de um mergulhar na história, e a gente não nega uma boa história - nem um bom mergulho.
65|10 - Vocês mergulharam de cabeça e fizeram história nessa festa tão importante de celebração das nossas inteligências ancestrais, como foi isso?
Todos os anos, há 20 anos, o Ministereo Público faz o que eles chamam de uma “oferenda sonora” para Yemanjá.
Há muitos anos, essa oferenda era feita como dava, em bares e casas de shows pequenas que não conseguiam acomodar a grandiosidade desse evento. Esse ano o pessoal do Ministereo Público, junto ao Russo Passapusso procurou a Mergulhos e a Zion (nossos parceiros de produção, que são incríveis) para organizar essa oferenda sonora. A Zion já tinha feito parte dessa festa no ano de 2024: eles ajudaram na produção e fizeram esse registro documental lindo.
Em 2025 essa história completou 20 anos, uma data muito importante que exigia uma comemoração à altura. E há 20 anos eles tinha um sonho: que a oferenda acontecesse à céu aberto na Praia da Paciência, bem ao lado do Rio Vermelho - onde todo mundo pudesse fazer suas oferendas do sagrado e depois, a oferenda ao profano - e assim, aconteceu.
Com o patrocínio do Governo do Estado da Bahia, produção da Zion e Mergulhos e apoio da Macaco Gordo, realizamos a maior oferenda sonora que Salvador já viu, com 10 mil pessoas lotando as areias quentes da Paciência.
Logo mais vem um documentário sobre esse dia tão marcante na nossa história - da Mergulhos e do 2 de fevereiro.
Ano que vem tem mais e vocês já estão todos convidados.
Bônus: Andreza Maia e uma conversa reveladora com uma I.A.
Fica, vai ter dica
Para ler:
Capitalismo Tardio e os Fins do Sono
O desejo dos outros: Uma etnografia dos sonhos yanomami
A newsletter deliciosa da
Para ouvir:
Amei, Thais! Obrigado pelo espaço dado à Mergulhos <3
Bom demais mergulhar nesse mesmo mar que você também