#falarede: arroz, feijão e Ozempic
o controle do corpo e da alimentação femininos como marcadores de classe
Trabalhamos em rede. Espalhada por todo o Brasil, alguns países da América Latina, Europa e Estados Unidos, a nossa rede de mais 400 especialistas é plural nos talentos - de antropólogas a diretoras de arte, redatoras a recrutadoras, de fotógrafas a gerentes de projeto - e também diversa em raças, orientação sexual, idade e outras interseccionalidades. É ela que nos permite resolver problemas de ponta a ponta: da estratégia até o craft da direção de arte e redação, passando por pesquisa e criação de insights.
“Fala, rede” é nosso espaço para dividir o que essa rede tem feito de bacana e inspirador. Nesta edição trazemos um teste de um novo formato: a partir de um papo animado do nosso grupo de Whatsapp, essa newsletter traz os insights da rede sobre moda, alimentação e corpo.
1. Quem pode pagar pelo corpo ideal?
O retorno da estética Heroin Chic nas passarelas da semana de moda de Paris — com modelos extremamente magras, maquiagem borrada e aparência frágil — tem sido lido como um sinal de que a moda voltou a celebrar a escassez. Mas talvez o movimento diga menos sobre tendências estéticas e mais sobre os ciclos de controle do corpo feminino.
“Nos anos 90 foi uma resposta às mulheres ocupando mais espaço no mercado de trabalho. E acredito que agora é resposta à quarta onda do feminismo. É sempre sobre o controle dos corpos das mulheres. Esta necessidade de controle pode ser uma pressão externa, mas também parece uma resposta das próprias mulheres ao período pandêmico. Se a obesidade era colocada como “comorbidade” durante a COVID, é natural que a busca por emagrecer venha como resposta. Em um mundo em descontrole, tentamos controlar o que está ao nosso alcance: nossos corpos.” - Thaís Fabris, criadora da 65|10
“Nesse momento, o corpo passa a ser uma vitrine de um lifestyle focado em desempenho. Um projeto a ser constantemente aperfeiçoado. Como a saúde não é algo que a gente consegue enxergar, a estética do corpo vira um reflexo visível de sucesso. Um corpo valorizado, masculino ou feminino, é aquele que pode ser lido como alta performance: mantido sob controle, em forma padrão, produtivo.” - Cris Bartis, criadora do podcast Mamilos
Enquanto isso, um outro tipo de controle se populariza: químico, silencioso e caro. Os agonistas de GLP-1 (Ozempic, Monjauro e afins) viraram sinônimo de magreza “eficiente”, circulando entre mulheres brancas, urbanas e de alta renda. De certa forma, se repete a mesma lógica da moda: a magreza como ativo de mercado.
“Me pega muito a sensação que só não tá usando Ozempic quem é pobre ” - Larissa Guerra, jornalista e criadora do podcast Donas da P* Toda
Luciana Moraes, estrategista e ativista anti-gordofobia, traz para a conversa dados sobre o como o interesse no tema mudou nos últimos anos. Os gráficos mostram que aumento de interesse em 2022/23 para uma queda drástica, que coincide com o período de maior crescimento de faturamento da Novo Nordisc, fabricante do Ozempic.
Este marcador influencia a cultura e passa uma impressão que todas queremos ou podemos ser a modelo heroin chic, a atriz magérrima ou a influenciadora fitness da alimentação funcional.
O varejo de moda é uma das indústrias que embarcaram nessa “trend” de acreditar no encolhimento dos corpos. Nas lojas de departamento, o espaço dedicado a tamanhos maiores, que nunca chegou a ser proporcional à demanda, diminuiu ainda mais.
“Sou uma mulher com um corpo ‘fora do padrão’ desde sempre e nunca me senti tão mal tentando achar uma calça que me sirva. Simplesmente não existem mais peças do 44 pra cima.” - Larissa Guerra, jornalista e criadora do podcast Donas da P* Toda
O mercado parece andar na contramão dos dados: apesar do “efeito Ozempic" e do aparente boom fitness, o índice de obesidade* entre mulheres aumentou de 12% em 2019 para 22% em 2021, segundo o Ministério da Saúde.
A mensagem é clara: o mercado volta a se comunicar com um único corpo, e ele é pequeno. O resultado é que a magreza se torna um marcador de classe e status e mulheres de corpos reais estão sendo novamente excluídas do consumo e da cultura.
*aqui trazendo uma ressalva de que o termo obesidade é contestado pelo movimento anti-gordofobia por estigmatizar corpos gordos como doentes.
2. O Brasil real ainda come arroz e feijão
Curiosamente, no mesmo momento em que esse corpo é exaltado, o Brasil real ainda come arroz, feijão e peixe. Uma pesquisa recente do IBGE mostrou que as famílias de menor renda mantêm uma alimentação mais tradicional e consomem menos ultraprocessados que as classes mais altas. Por outro lado, o consumo de saladas é maior entre os mais ricos.
O dado desmonta uma crença comum no debate público e na mídia: a de que os mais pobres estariam se alimentando mal porque comem “muita comida industrializada”.
“Achei esse dado muito interessante, porque tem uma ‘lenda urbana’ de que os mais pobres estão comendo muitos alimentos ultraprocessados. Nada como um IBGE pra gente parar de olhar dado gringo e achar que se aplica ao Brasil.” - Thaís Fabris, criadora da 65|10 - “Ozempic e comida processada ainda são coisa de rico no Brasil. O que aparece é que adolescentes e a camada mais rica consomem ultraprocessados com mais frequência e os mais pobres ainda seguem a alimentação tradicional.”
Enquanto nos Estados Unidos o problema alimentar está nas classes populares, aqui o consumo de ultraprocessados (assim como o de medicamentos para emagrecer) é um marcador de status.
Ao mesmo tempo, o conhecimento sobre alimentação também se concentra em poucos. Cursos técnicos e médicos, como os da Unicamp, já tratam “ciência da alimentação” como disciplina obrigatória — um sinal de que até os profissionais de saúde precisam reaprender a falar sobre comida.
“O estilo de vida do médico impacta em até 80% o tipo de conversa que ele tem com seus pacientes. Pacientes de médicas que fazem mamografia tendem a dizer pra suas pacientes fazerem. O mesmo se aplica a alimentação. Entretanto, as novas gerações parecem não saber falar sobre comida de verdade com seus pacientes, precisa de uma disciplina pra isso.” - Cris Bartis, criadora do podcast Mamilos “Estamos perdendo uma cultura riquíssima que é a alimentar. Saber programar o que comprar, escolher, higienizar, saber a receita, preparar e limpar a cozinha depois. Perdendo, simples assim.”
Enquanto se perde repertório, perde-se também uma cultura.
“A gente responsabiliza o indivíduo por escolhas que não estão na mão dele — o tempo de escolher os ingredientes, por exemplo. É privilégio sim cuidar da própria comida de ponta a ponta, infelizmente.” - Luciana Moraes, estrategista
O que se desenha é um mercado em que a relação das mulheres com a comida e com o próprio corpo é, ao mesmo tempo, cultural e econômica. A alimentação é um espelho de poder: quem pode pagar para comer bem, ou para não comer nada, sinaliza pertencimento. E no meio disso, o simples prato de arroz com feijão — equilibrado, nutritivo e brasileiro — continua sendo o que escapa ao ciclo da escassez e do excesso.
Também participaram desta conversa: Gabriela Bianco, Maíra Blasi, Day Bernardino, Gica Trierweiler e Flavia Durante






