#falarede: a importância da amizade entre mulheres
o que a nossa rede anda fazendo de interessante
Trabalhamos em rede. Espalhada por todo o Brasil, alguns países da América Latina, Europa e Estados Unidos, a nossa rede de mais 400 especialistas é plural nos talentos - de antropólogas a diretoras de arte, redatoras a recrutadoras, de fotógrafas a gerentes de projeto - e também diversa em raças, orientação sexual, idade e outras interseccionalidades. É ela que nos permite resolver problemas de ponta a ponta: da estratégia até o craft da direção de arte e redação, passando por pesquisa e criação de insights.
“Fala, rede” é nosso espaço para dividir o que essa rede tem feito de bacana e inspirador. Nessa semana, Larissa Magrisso fala sobre a série de encontros que sua plataforma Lúcidas está promovendo nesse mês para fortalecer as amizades femininas.
Lari Magrisso e as amigas que nos manterão Lúcidas mesmo quando estivermos doidas.
65|10 - Me conta o que é a Lúcidas? De onde veio essa ideia? Qual a intenção da Lúcidas, o que vc almeja que ela construa?
Lari Magrisso - A Lúcidas é um convite pras mulheres colocarem a amizade feminina como prioridade. Numa descrição mais concreta, é uma plataforma de conteúdo, investigação e experiências que incentiva a amizade entre mulheres como um pilar essencial de saúde e bem-estar social.
E também é um sonho de um futuro mais feliz e com cuidado mútuo pra gente. Em que nenhuma mulher se sinta menos plena por não ter cumprido o roteiro desenhado de ter um relacionamento romântico e uma família pra cuidar. E que entre as que cumprirem, as amigas estejam no mesmo patamar de prioridade, que a gente esteja apta para criar e cultivar esses vínculos num mundo que historicamente desestimula, invisibiliza e ridiculariza essa relação.
Eu não proponho a amizade feminina como substituta pra uma parceria romântica, mas quando comecei a estudar e a entender as evidências científicas de que as amigas são um superpoder, que salvam a nossa vida real, que principalmente na velhice são sim mais importantes que a família "de sangue”, eu pensei: a gente não é incentivada a cuidar disso na mesma proporção de outras partes da vida.
Desde pequenas somos bombardeadas por referências de como precisamos investir na família, num relacionamento amoroso, na carreira, no corpo, e as amizades são um “se rolar, rolou". Cresci lendo revista feminina e lembrava de uma ou duas matérias ocasionais sobre amizade. Não dá! No jargão jornalista, de onde venho, pensei: amizade não é uma pauta, é uma editoria inteira. Nos dias de hoje, uma editoria é uma plataforma com conteúdo (hoje estamos no Substack, Instagram e TikTok), investigação (montei uma Biblioteca Lúcidas, um banco de dados, quero fazer pesquisas autorais também) e experiências (encontros presenciais e online pra mulheres exercitarem o músculo da amizade).
A ideia veio do acúmulo dessas reflexões em plena pandemia, quando eu estava afastada das minhas amigas, veio de insights que a gente trocava (eu e você), veio de uma vontade de voltar a escrever e pensar “o que me deixa curiosa? sobre o que eu gostaria de pesquisar e falar por muito tempo?", veio de uma verdade muito grande minha, que posso dizer que vivo as amizades profundamente. E tudo isso misturado e fermentando por um bom tempo, até que depois de uma consulta de tarô que nada tinha a ver com isso eu sentei em frente ao computador e escrevi o projeto inteiro. Nome (que veio de uma história de família), tagline, propósito, os três pilares. O que eu poderia fazer já, o que posso fazer daqui a cinco anos. E desde que lancei, em maio de 2023, tenho seguido esses passos devagarzinho. E nesse período, vi o tema explodir, um verdadeiro despertar coletivo pra importância dessa relação.
65|10 - Qual é a importância da amizade feminina?
Lari Magrisso - O lema da Lúcidas é: “As amigas nos manterão sãs, mesmo quando estivermos loucas".
E esse é o tamanho da importância.
Se a gente for para o lado da ciência, as descobertas mais recentes são categóricas: a qualidade das nossas relações é o fator mais determinante para nossa felicidade e saúde. Para as mulheres, especificamente, as amigas são um mecanismo biológico de regulação emocional e combate ao estresse (fonte: UCLA/PubMed). Sentir-se importante para uma amiga está ligado a emoções positivas (fonte: Hellenic Psychological Society, 2021). Os homens não sentem consideravelmente esse efeito. E pra ambos os gêneros, a ausência desses vínculos é uma tragédia. A solidão é conectada a um maior risco de doenças vasculares, neurológicas, mortes precoces. O equivalente a fumar 15 cigarros por dia, de acordo com a OMS.
Aí se a gente for pelo lado da sociedade como um todo, colocar a amizade entre mulheres como uma prioridade é revolucionário. Porque é talvez o único espaço em que o cuidado que a gente dá é proporcional ao que a gente recebe. As amigas são incentivo, parceria, diversão, crescimento, amor, rede de apoio. Quando a gente entende essa potência, quando entende que elas podem ser nosso presente e plano de futuro, é mais difícil ficar numa relação amorosa de merda. Inclusive a primeira ação que um parceiro abusivo faz é afastar a vítima das amigas.
65|10 - Pelos seus estudos, tem receita pra conquistar novas amigas e manter as amizades antigas?
Lari Magrisso - O ponto principal é ser intencional. É decidir: as amizades são essenciais e eu vou priorizar isso. No estudo sobre felicidade de Harvard eles trazem o termo “social fitness", ou seja, a ideia de que precisamos exercitar o músculo da amizade assim como vamos pra academia cuidar do corpo.
Na prática: convide a aceite convites. Convide muitas vezes se preciso (sou dessas), não fica fazendo contabilidade.
Claro, se a pessoa já deixou claro que não tem disponibilidade talvez seja o caso de desencanar, mas não fica guardando mágoa. Faça convites com antecedência pra coisas mais elaboradas, mas principalmente faça convites pra agora, tipo: posso passar aí? Pra fazer nada, pra ter tédio juntas, pra resolver burocracia.
Eu tinha uma grande preocupação no começo do projeto em não colocar mais uma tarefa no prato da mulher que já tá exausta, já não dá conta, não tem tempo pra nada. Mas a amizade com outras mulheres é esse espaço de descompressão também. É abrir um tempo na agenda, é fazer um esforço pra sair de casa, mas é voltar renovada, com a autoestima lá em cima porque as amigas enchem a bola da gente e nos lembram quem somos. É essencial. Vale cada esforcinho.
E esse social fitness não é necessariamente ter muitas amigas, ter a agenda cheia. Mas é investir nas que valem a pena. E ter coragem pra criar novas amizades se você por algum motivo tá sem. Dá pra fazer isso em qualquer etapa da vida.
Outra coisa importante: entender que amizade adulta precisa de algum tipo de “planejamento”. A vida não é mais como na escola. Se a gente não marca, não cuida, não rega, o laço esfria. Mas isso não significa perder a espontaneidade, só perceber que a amizade também precisa de tempo, prioridade e ação.
65|10 - Dá pra manter e construir amizades só no virtual? Ou os encontros ao vivo são fundamentais?
Lari Magrisso - Aqui vou dar uma opinião baseada no meu umbigo porque não sei se já temos estudos sobre isso. As minhas relações que funcionam no virtual são as que são nutridas por encontros ao vivo, mesmo que raramente. Eu amo amigas que moram longe e que levo tempo sem encontrar, mas nesse caso são amizades que se construíram na convivência presencial, que têm uma base forte. E que o virtual é rotina, a gente tá sempre falando, se pede ajuda, conta as coisas. Eu tô construindo uma amizade com uma mulher que conheci num grupo de Whatsapp e tive muita afinidade. Esses tempos ia passar pela cidade dela e avisei, almoçamos, a partir dali fomos pra um outro patamar de vontade de troca. Acho que precisa dessa vontade mútua. Mas sei que pra outras gerações isso não faz tanto sentido.
65|10 - O que você acha das pessoas que estão usando IA como amigas e da ideia do Zuckerberg de que a IA pode suprir essa necessidade?
Lari Magrisso - O quão cruel é pegar dados de uma pesquisa que ele mesmo promoveu sobre altos índices de solidão e colocar como solução um produto seu sem indício científico nenhum de que ajuda as pessoas? Pelo contrário, uma pesquisa recente do MIT mostrou que quanto mais a gente conversa com a IA como se fosse um amigo, mais solitárias nos sentimos.
As IAs Companions, ou os chats mais humanizados usados como companhia, dão um alívio inicial, mas seu uso está ligado a menos socialização com humanos, mais dependência emocional da IA e comportamentos compulsivos.
Isso significa que devemos ignorar completamente a existência? Acho difícil, e eu mesma uso como “amiga” quando acho que aluguei demais as minhas humanas com alguma questão. Mas é importantíssimo termos o senso crítico: a IA não causa atrito, ela vai falar o que achar que vai agradar mais. A gente precisa de amigas de verdade que nos digam verdades, ponto. Se ficarmos só com esse tipo de interação, cada vez mais seremos incapazes de nos relacionar com humanos. É o que a psicoterapeuta Esther Perel chamou de atrofia social em sua visita ao Brasil.
65|10 - Por que promover encontros de amigas no mês dos namorados?
Lari Magrisso - Esse é o período em que as mulheres são bombardeadas com mensagens que reforçam a importância de viver um amor romântico pra ter uma vida plena. O que causa angústia e reforça a solidão de quem não tá num relacionamento romântico (ou tá num relacionamento ruim). Momento ideal pra gente falar de amor de amigas, não como substituto, mas como algo que precisa ser tão priorizado quanto (ou mais).
Foi daí que surgiu a ideia de uma trilogia de encontros:
CHEGAR (se colocar disponível pra fazer novas amigas)
BRINCAR (se permitir com elas)
SONHAR (fazer planos de futuro com a uma amiga especial)
Três atitudes que a sociedade não nos incentiva, mas que transformam a vida.
65|10 - Tem mais alguma coisa que vc queira contar que eu não perguntei?
Ai, tem uma coisa que muita gente pergunta e eu amo contar, que é a história do nome Lúcidas. Vem do léxico familiar. Minha tia-avó Irma, que sempre teve muitas amigas e era uma figura, aos 90 anos foi morar num lar de idosos. Chegando lá, reconheceu uma amiga de infância. Resolveu se aproximar e mandou essa, de cara: “amiga, tu tá lúcida?” A pergunta impossível virou bordão da família e entre as minhas amigas. E Lúcidas é isso: não é sobre estar superbem da cabeça (ninguém tá!), mas saber que as amigas nos manterão sãs, mesmo quando estivermos loucas. E a sociedade e os homens vão nos fazer acreditar muitas vezes que estamos loucas.
Bônus: um texto da nossa criadora Thais Fabris sobre a importância das amigas.
Fica, vai ter dica
O que está no radar da nossa rede:
Pra ir:
Encontros da Lúcidas: quem assina nossa news tem desconto ;)
As queridas Ju Wallauer e Cris Bartis vão fazer um Mamilos ao vivo entrevistando o Marcos Nanini, tem tudo pra ser lindo.
Para assistir:
Pablo e Luisão (Globoplay)
Dying For Sex (Disney + ou AppleTV) - essa inclusive está 100% no tema da importância das amigas, viu?
Para ouvir:







