Em 2026, queremos te ver na rua sem medo
afinal, perigoso mesmo é não ter rede de apoio
A gente confere a fechadura três vezes, evita o celular na rua e olha por cima do ombro ao sentir alguém andando na mesma calçada. A ironia dessa história? Enquanto a gente se protege de um lado, acaba caindo em outra armadilha do outro: a da solidão.
A segurança pública é a principal preocupação de 26% das mulheres brasileiras, enquanto para os homens o topo da lista é ocupado por ordem e corrupção. Esse medo não é distribuído de forma igual: ele tem cor e classe social. São as mulheres pretas e pardas, especialmente as que ganham entre dois e cinco salários mínimos, que mais sentem esse frio na barriga ao caminhar pela cidade, com 78% delas respondendo que se sentem inseguras caminhando pelas ruas da cidade onde vivem. E não é à toa: mulheres negras são as maiores vítimas de violência e seus índices sobem mesmo quando os indicadores totais de violência contra a mulher diminuem.
A sensação de insegurança afeta a rotina das mulheres, mais do que a dos homens. O Datafolha aponta que 76% delas mudaram sua rotina por medo: deixaram de usar o celular, mudaram o trajeto ou, o que é mais triste, deixaram de fazer algo por puro lazer.
O resultado desse receio é uma sociedade de estranhos. No Brasil, apenas 6% das pessoas concordam que “podemos confiar na maioria das pessoas”. Os outros 94% vivem no modo “cautela total”. O problema é que o medo gera desconfiança, que gera isolamento, que gera uma cidade de ruas vazias. E, convenhamos, nada é mais desolador (e parece mais perigoso) do que uma rua sem ninguém.
Mas aqui entra a provocação: e se a gente estivesse lendo o mapa do jeito errado?
Cuidado, meu bem, há perigo na esquina dentro de casa.
A maioria dos casos de violência contra a mulher acontecem dentro de casa, causados por parceiros ou ex-parceiros amorosos. Nosso maior risco não é um homem desconhecido na esquina. A rua, pelo contrário, pode ser um local de acolhimento, pertencimento e proteção.
Vimos no report GPS - Guia Para Socializar, o poder que as comunidades que se encontram nas ruas têm para defender as mulheres de situações de violência. Mandi Roldan, do Joga Miga, nos contou uma história sobre como as mulheres da comunidade dela se protegem:
O que acontece no Joga Miga é exatamente isso: são mulheres que conheceram outras, com as quais elas não teriam contato se não tivesse o futebol. E são vínculos fortes, da turma se juntar para bater na porta de uma pessoa que era abusiva com uma das alunas, sabe? De bater na porta e falar: "Olha, a gente veio pegar as coisas da fulaninha e você vai deixar, porque senão o pau vai comer".
Esta é apenas uma história de muitas que ouvimos de mulheres que encontram apoio nas comunidades para sair de situações difíceis.
É preciso vencer o medo dos perigos da rua e a desconfiança em relação ao outro para chegar a esse lugar de encontro. No GPS - Guia Para Socializar, a gente traçou o caminho que leva da solidão às comunidades.
Tudo é perigoso, tudo é divino e maravilhoso
Existe um fenômeno que pesquisadores chamam de insegurança informacional. Sabe aquela sensação de que o mundo está um caos porque o grupo de WhatsApp não para de apitar com alertas? Pois é. Às vezes, a nossa percepção de risco é moldada mais pelo ambiente digital do que pela realidade das ruas.
Os números oficiais contam uma história diferente. O Atlas da Violência 2025 e o Mapa da Segurança Pública mostram que o Brasil registrou o menor número de homicídios em 11 anos. Até a violência doméstica apresentou queda, passando de 7% em 2014 para 4% em 2015 segundo a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher (DataSenado, 2025).
Mesmo assim, a gente tem a sensação de que a violência aumentou.
Talvez seja a hora de dar um tempo de programas sensacionalistas, podcasts de true crime e, até mesmo, de reality shows que normalizam a desconfiança como norma de conduta.
Já faz tempo eu vi você na rua, cabelo ao vento, gente jovem reunida
Estamos vivendo uma epidemia de solidão porque desaprendemos a ocupar o espaço comum. Ao tentarmos nos proteger de um risco que as estatísticas dizem estar diminuindo, abrimos mão da rede de apoio que só existe quando as pessoas se encontram.
A proposta aqui é subverter a lógica. Se a maioria das violências contra a mulher acontece no ambiente doméstico, a rua não deveria ser o lugar do medo, mas o lugar da libertação. É na calçada, na praça e nos grupos de bairro que a gente constrói as redes de suporte que nos salvam quando as coisas apertam em casa.
Vencer o isolamento é uma questão de saúde emocional. Procurar comunidades que se encontram ao ar livre, grupos de caminhada ou coletivos culturais não é apenas lazer — é uma estratégia de sobrevivência coletiva. Quando as mulheres ocupam as ruas, a cidade muda de cara. A segurança não vem de muros mais altos, mas de mais olhos atentos e mais mãos estendidas.
O medo nos isola, mas a rede nos sustenta. Que tal a gente começar trocando a desconfiança por um “bom dia” na próxima esquina? A cidade é nossa, e ela fica muito melhor quando a gente está nela.
Leve essa conversa para dentro da sua empresa
O trabalho pode ser, sim, um lugar de conexão. É bem provável que as mulheres da sua empresa se sintam solitárias. Promover comunidades no ambiente corporativo é bom para os trabalhadores e para o negócio.
Nós desenvolvemos palestras, encontros e experiências para melhorar a saúde social das suas colaboradoras.





