E a adolescência das meninas, como vai?
E pra que futuros elas apontam?
Enquanto a série Adolescência continua provocando necessárias discussões sobre como estamos criando meninos - expostos ao machismo nas redes, com poucos exemplos positivos de masculinidade, sem suporte da família ou escola - por aqui nosso pensamento se volta para os reflexos desses mesmos fenômenos nas meninas adolescentes.
Nós acompanhamos e estudamos as meninas da Geração Alpha desde bem pequenas. Tudo começou em 2016, com o projeto Meninas Fortes, em que olhamos para a relação delas com esportes e, para isso, partimos de uma pesquisa do Studio Ideia para Nescau. Em 2023 lançamos, em parceria com a Força Meninas, o maior levantamento sobre o futuro profissional de meninas brasileiras. Entrevistamos 218 meninas de 10 a 18 anos e realizamos um questionário quantitativo com 1.232 respostas de meninas e meninos de 10 a 17 anos para criar o report Meninas Curiosas, Mulheres de Futuro. Também conversamos muito com meninos e meninas em projetos para uma rede de escolas de São Paulo.
Falar com meninas é falar sobre assédio e violência
Temos o vergonhoso título de pior país da América do Sul para nascer menina e em nossas conversas com elas fica muito evidente por quê. Meninas crescem em ambientes em que estão expostas a diversos tipos de violência: física, sexual, moral e de gênero. Essas violências perpassam suas experiências de aprendizado: do colega que assedia à violência sexual a caminho da escola, passando por agressões físicas de pais e professores ao demonstrar dificuldade de aprendizagem. A negligência das pessoas responsáveis por cuidar, ensinar e proteger também é uma constante. Não é à toa que, além da educação financeira, as meninas que entrevistamos também gostariam de ter aulas de auto-defesa nas escolas.
Estereótipos de gênero atrapalham seu desenvolvimento e elas já sabem que isso não está certo.
Atividades, comportamentos e interesses ainda são classificados pelos adultos como “de menina” ou "de menino" e isso impacta desde o acesso das meninas à prática esportiva até sua performance escolar, pois elas são sobrecarregadas com tarefas domésticas muito mais do que os meninos.
Ao fazer o recorte de gênero de uma ampla pesquisa com pais e mães de meninos e meninas para Nescau, vimos que desde bem pequenas as meninas da geração alpha já eram impactadas por estereótipos de gênero. Enquanto os meninos brincavam na rua, elas ficavam confinadas em seus quartos. Enquanto eles se viam como leões, elas se viam como coelhinhos fofinhos.
Elas demonstram ter consciência de que essa divisão do mundo em rosa e azul não faz sentido e chegam a se revoltar contra as regras impostas pelos adultos
Elas não podem ser o que não podem ver
Ainda que percebam as violências materiais, físicas e simbólicas a que são submetidas, as meninas não têm muitas referências de como fazer diferente. Perguntadas sobre quem são suas grandes referências, citam mães, tias e avós que se sacrificam pela família. Vivemos em uma sociedade que explora o trabalho do cuidado gratuito das mulheres e as chama de "guerreiras" e é este o legado que estamos deixando para as meninas: para a mulher ser admirável é preciso ser praticamente uma mártir. A esmagadora maioria não conhece, por exemplo, mulheres notáveis na ciência, tecnologia ou engenharia. Como elas vão sonhar e construir um futuro que não seja esmagado pela sobrecarga do cuidado?
Ainda assim, nossas meninas têm ambição: seja nas escolas públicas ou privadas, elas elas desejam ocupar lugares de poder e ter um impacto positivo na sociedade e em suas famílias.
O que elas vão ser quando crescer?
Dentro das meninas que atravessam hoje o turbulento período da adolescência mora a semente das mulheres que elas serão amanhã. Mulheres que chegarão à vida adulta já tendo experimentado uma alta dose de violência e, tendo consciência das injustiças a que somos submetidas, carregarão uma grande ambição de melhorar o mundo à sua volta. É com essa força que elas serão capazes de modificar os papeis de gênero, ocupar lugares que as gerações anteriores nem imaginaram e preparar as futuras meninas e mulheres para irem além.
Conversar com meninas adolescentes em nossas pesquisas muitas vezes nos leva às lágrimas, mas mais vezes ainda nos enche de esperança. O futuro é menina, são elas que têm a chave do porvir.
“O bom de ter problemas é que a gente aprende a resolver os problemas”
- menina estudante de escola particular em São Paulo, 13 anos.






